Uma investigação que durou quatro anos e identificou a movimentação de mais de R$ 70 milhões resultou na Operação Erga Omnes, deflagrada nesta sexta-feira (20) pela Polícia Civil do Amazonas para desmantelar o núcleo político do crime organizado instalado em diferentes esferas do poder público estadual.
Coordenada pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), a ação mira uma organização criminosa que, segundo as apurações, contava com a participação ativa de servidores públicos para viabilizar o tráfico interestadual de drogas, a lavagem de dinheiro e a corrupção.
Dos 24 mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça, 13 foram cumpridos até o momento. As buscas se estendem por Manaus e pelos estados do Pará, Piauí, Ceará, Maranhão e São Paulo. Onze pessoas seguem foragidas, sendo sete no Amazonas e as demais nas outras unidades da federação.
O principal alvo da operação, Alan Kleber, apontado como líder do grupo, não foi localizado. Segundo a polícia, ele fugiu por volta das 3h do imóvel onde estava em São Paulo, pouco antes do início da operação. A esposa dele foi presa pela Polícia Civil paulista.
Quem são os investigados
Entre os alvos da operação estão servidores e ex-servidores de diferentes esferas do poder público. Confira a lista divulgada pela Polícia Civil. São eles: Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas; Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas; Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus. Foi chefe de gabinete do prefeito David Almeida até 2023; Alcir Queiroga Teixeira Júnior – citado na investigação por movimentações financeiras suspeitas; Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar; Osimar Vieira Nascimento – policial militar; Bruno Renato Gatinho Araújo – investigado por participação no esquema; Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara.
As investigações apontam que a organização criminosa adquiria drogas em Tabatinga, na região de tríplice fronteira, e as distribuía para outros estados, utilizando empresas fantasmas do ramo de logística para camuflar o transporte dos entorpecentes. Essas empresas, segundo a polícia, não apresentavam movimentações compatíveis com a atividade declarada, mas mantinham negociações financeiras diretas com os servidores públicos investigados.
Há indícios de lavagem de dinheiro do tráfico e de intercâmbio financeiro com agentes em cargos estratégicos, incluindo ex-assessores parlamentares de vereadores, profissionais da advocacia, policiais militares e civis, além de servidores municipais e integrantes do Poder Judiciário.
A operação também determinou o sequestro de veículos e valores pertencentes aos investigados, além do bloqueio de bens de empresas fantasmas ligadas ao tráfico.
Infiltração no serviço público
De acordo com a Polícia Civil, a organização criminosa utilizava agentes públicos para garantir trânsito facilitado em órgãos estatais e acesso a informações sensíveis. Em áudios e mensagens interceptadas, Alan Kleber afirmava que não temia ser preso porque “pagava todo mundo de todas as esferas” e orientava os comparsas a não se preocuparem.
O líder do grupo se apresentava como membro de uma empresa ligada a uma igreja evangélica. A corporação destacou que, até o momento, não há políticos com foro privilegiado entre os alvos da operação. A polícia informou que ainda será apurado se parlamentares tinham conhecimento da atuação dos assessores investigados.




