Uma obra de manutenção na BR-319, a única ligação asfáltica do Amazonas com o restante do país, pode ter sido superfaturada em mais de R$ 12 milhões. A suspeita partiu da “Alice”, ferramenta de inteligência artificial da Controladoria Geral da União, que identificou irregularidades em um contrato da rodovia que gerou uma economia de cerca de R$ 12 milhões aos cofres públicos. As informações foram reveladas pelo Jornal Hoje.
A descoberta acende um alerta para os amazonenses, que há décadas convivem com a precariedade da BR-319. Considerada estratégica para o escoamento de produção e o fluxo de passageiros entre Manaus e o Sul do país, a estrada acumula buracos, pontes caídas e trechos intransitáveis na cheia. Só nos últimos anos, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) lançou licitações bilionárias para recuperar a via – uma delas, R$ 678 milhões foi suspensa pela Justiça por riscos ambientais. Em abril de 2026, novo certame de R$ 78 milhões foi suspenso pela Justiça por riscos ambientais.
Em abril de 2026, novo certame de R$ 1,36 bilhão foi aberto para o trecho central da rodovia. Estudos apontam que o custo final pode ultrapassar R$ 2 bilhões até 2028.
Enquanto o contribuinte amazonense luta com os impostos mais altos do país, a Alice escaneia contratos como o da BR-319 e encontra inconsistências. Criada em 2014 por auditores da CGU, a ferramenta utiliza dados de compras públicas e cadastros de estados e municípios para emitir alertas. De 2023 a 2025, foram quase 35 mil alertas em todo o Brasil, que geraram uma economia total superior a R$ 5 bilhões. No Amazonas, além da BR-319, a tecnologia já detectou sobrepreços em pregões de hospitais e serviços públicos.
A análise da Alice ocorre em três etapas: planejamento, seleção de fornecedores e execução do contrato. O sistema identifica, por exemplo, empresas sem funcionários ou sem estrutura para executar o serviço, além de participantes impedidos de licitar. O desafio agora é ampliar o uso da ferramenta também para prefeituras amazonenses, já que mais de 700 editais são lançados por dia no país, um volume impossível de ser analisado apenas por humanos.
O senador Eduardo Braga (MDB-AM) tem se consolidado como a principal voz política em defesa da BR-319 no Congresso Nacional. Com um discurso inflamado, o parlamentar classifica a situação de isolamento terrestre do estado como uma questão de sobrevivência. Em um vídeo que repercutiu nas redes sociais, Braga trouxe à tona traumas recentes da população amazonense, como a trágica crise de oxigênio em Manaus no auge da pandemia de 2021, quando pacientes morreram enquanto caminhões carregados com cilindros vitais ficaram atolados no barro da rodovia. Para ele, a frase que sintetiza sua luta é objetiva: “A BR-319 não é sobre estrada. É sobre dignidade”.
Em agosto de 2025, Braga reagiu com veemência ao veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à sua emenda na Lei Geral de Licenciamento Ambiental, que isentava da obrigação de novas licenças para obras de manutenção em rodovias já existentes, o caso exato da BR-319, construída na década de 1970. O senador classificou a medida como “um golpe contra um sonho de gerações” e prometeu articular a derrubada do veto no Congresso. “Manaus é o único exemplo mundial de cidade com mais de 2 milhões de habitantes que segue isolada por terra do resto do Brasil”, afirmou na ocasião.
Na prática, a briga política se estendeu para o campo das disputas judiciais e ambientais. Em abril de 2026, Braga aumentou a pressão institucional depois que uma ação do Observatório do Clima conseguiu suspender temporariamente os pregões para a pavimentação do trecho do meio da rodovia. Reagindo nas redes sociais, o senador atacou a entidade: “Uma ONG, que não tem sede no Amazonas, financiada por um grupo de inimigos do progresso do Amazonas, que não faz ideia do que é depender de uma estrada para chegar ao hospital ou escoar o seu produto”. Ele voltou a defender a legalidade da reconstrução da estrada, argumentando que a nova Lei de Licenciamento Ambiental garante a intervenção por se tratar de uma via já pavimentada originalmente.
Cronograma eleitoral
Apesar da atuação intensa do senador, o avanço físico das obras esbarra na cronograma técnico. Embora Braga comemore a publicação dos editais para a pavimentação de 339 quilômetros do “trecho do meio”, analistas políticos do Amazonas apontam que, mesmo no cenário mais otimista, os 36 meses previstos para a execução empurrariam a conclusão para depois de 2029. A crítica que ronda o discurso de Braga é de que, assim como ocorre há quatro décadas, a promessa da revitalização da BR-319 ressurge com força total apenas em épocas de eleições majoritárias. Coincidentemente, o senador disputa a reeleição em outubro de 2026.




