Depoimento ocorrido na última sexta-feira (20) à Polícia Civil, prestado pelo dono da Revoar Turismo, empresa apontada pela polícia como fantasma a serviço do Comando Vermelho (CV), expôs ainda mais o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante). Alcir Queiroga Teixeira Júnior afirmou que a então chefe de gabinete Anabela Cardoso Freitas pagou R$ 34 mil em espécie pelas passagens aéreas da viagem de “retiro espiritual” que o prefeito e a primeira-dama Izabelle Fontenelle fizeram a Saint Martin e Saint Barth, no Caribe, em fevereiro de 2025.

O depoimento foi dado no 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), logo após a prisão de Alcir na Operação Erga Omnes, que investiga a movimentação de mais de R$ 70 milhões de integrantes de uma organização criminosa em sete estados nos últimos quatro anos. Anabela Cardoso e outras 11 pessoas também foram presas na operação.
Enquanto outros investigados optaram pelo silêncio, Alcir decidiu falar. Confirmou que Anabela era sua cliente e responsável por adquirir passagens não apenas para si, mas também para o prefeito, a primeira-dama e familiares, como o sobrinho Kássio Almeida.
Viagem ao Caribe paga em cédulas
Sobre a viagem ao Caribe, Alcir detalhou que as passagens custaram aproximadamente R$ 34 mil e foram pagas integralmente em dinheiro vivo, majoritariamente em notas de R$ 50 e R$ 100, com eventuais cédulas de R$ 20. Segundo o empresário, quando as passagens eram destinadas a pessoas vinculadas à Prefeitura de Manaus, os pagamentos ocorriam sempre dessa forma.

Questionado sobre a origem dos valores, declarou: “Não sei se o dinheiro provinha do tráfico de drogas, do crime organizado ou de desvio de verbas públicas”. O uso de dinheiro vivo é apontado pela investigação como indício relevante em apurações sobre lavagem de dinheiro, por dificultar o rastreamento bancário.
Alcir negou ter recebido um depósito único de R$ 1,35 milhão de Anabela, mas admitiu que recebeu diversos depósitos menores ao longo de meses, que somados poderiam alcançar valores elevados.
A polícia também informou que a Revoar Turismo operava na modalidade “porta fechada”, sem sede física aberta ao público ou site ativo, sendo classificada como possível empresa de fachada no bairro Redenção, Zona Oeste de Manaus.
O empresário afirmou ainda não ter contrato formal com a Prefeitura de Manaus e que os serviços eram prestados a pessoas físicas, com pagamento intermediado por Anabela Cardoso em espécie para quitar despesas de lazer da “família Almeida”.
A esposa do prefeito, Izabelle Fontenelle, sua mãe Lidiane Fontenelle, a irmã do prefeito Dulcinéia Almeida e o vice-prefeito Renato Júnior chegaram a impetrar um Habeas Corpus Preventivo no âmbito da Operação Erga Omnes, mas desistiram do pedido na terça-feira (24). O grupo não é formalmente investigado.
O depoimento integra o conjunto de elementos da Operação Erga Omnes, que investiga a infiltração do Comando Vermelho na administração pública municipal. Segundo a polícia, a organização movimentou cerca de R$ 70 milhões em quatro anos, utilizando empresas de fachada e agentes públicos para viabilizar logística e proteção institucional.




