Familiares de vítimas da Covid-19 se emocionam ao prestarem depoimento na CPI da Pandemia

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Entre os familiares estavam o taxista Marcio Antônio, que perdeu o filho e foi hostilizado por recolocar cruzes que haviam sido retiradas de Copacabana, e a enfermeira amazonense Mayra Lima, que perdeu a irmã durante aqui em Manaus.

Nesta segunda-feira (18), a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia ouviu familiares de vítimas da Covid-19, além de outras pessoas que foram afetadas pela pandemia. Os depoimentos fizeram parte de um remanejamento no calendário da comissão.

Participaram Mayra Pires Lima, enfermeira em Manaus; Giovanna Dulce e Katia Shirlene Castilho dos Santos, órfãs por causa da Covid-19; Rosane Brandão, viúva por causa da Covid-19; Arquivaldo Bites Leite e Marcio Antônio, que foram acometidos pela Covid-19; e Antonio Carlos Costa, articulador da ONG Rio de Paz.

O primeiro a depor, foi Marcio Antônio, que perdeu um filho para a Covid-19 e ficou conhecido após impedir que pessoas retirassem homenagens às vítimas do coronavírus da Praia de Copacabana. “Eu daria a minha vida pro meu filho ter chance de ser vacinado. Quero entender porque lutar contra máscara e vacina. Eu daria tudo pro meu filho ter essa chance. Ele não é um número”, afirmou.

Ele também lamentou falas que considerou desrespeitosas em relação ao luto das famílias, inclusive o seu. “O sentimento com o qual eu fico não é pela dor da morte, é por tudo que vem depois, cada deboche. No meu coração, é muito difícil entender isso”, afirmou.

Marcos relembrou o episódio em que foi hostilizado por recolocar cruzes brancas no lugar. Elas haviam sido fixadas em Copabacana como forma de homenagear as vítimas da pandemia, mas foram derrubadas por um grupo de pessoas.

“Parecia que meu filho era culpado por ter morrido de Covid. Naquele dia da praia, eles começaram a me agredir chamando de comunista, a ação de ofender por apenas ofender. Quando eu saí, já não tinha mais nenhum deles”, contou.

O Amazonas também esteve representado na sessão de hoje. A enfermeira manauara Mayra Pires Lima falou sobre sua rotina como profissional de saúde durante a crise de falta de oxigênio na capital do Amazonas, além de compartilhar a história de sua irmã, que morreu pela Covid-19 e deixou três filhos órfãos.

“No Amazonas, tivemos uma situação bastante difícil. Quando eu me formei, tinha grande sonho de ajudar em outras calamidades. Hoje, eu falo que eu vivi uma guerra, atendi pacientes às vezes sem proteção nenhuma”, declarou.

“Perdemos ótimos médicos obstetras, perdemos colegas pra depressão e suicídio. Na enfermagem, tivemos 82 óbitos, fora os que ficaram sequelados. A gente via postagens sobre ‘os nossos heróis’; nós não queremos parabéns, queremos valorização”, disse, fazendo coro pela aprovação do projeto de lei (PL) 2564/2020, que visa aumentar o piso salarial dos profissionais da enfermagem.

Mayra contou que precisou cuidar da irmã no hospital em que trabalha enquanto ela própria estava se recuperando de uma infecção pela Covid-19, que deixou sequelas respiratórias. Segundo a enfermeira, a irmã precisava ser encaminhada às pressas para um leito de UTI, mas a disponibilidade não foi aberta à tempo.

“A minha irmã não volta, não consegui viver o meu luto. A minha irmã era uma pessoa especial na nossa família e tinha uma alegria que não tem como substituir”, afirmou.

Mayra também destacou a situação dos órfãos da Covid-19, incluindo seus três sobrinhos – dois deles gêmeos de 1 ano. “Os meus sobrinhos têm a nós, mas e as crianças que não têm família? Será que a gente se preocupa com isso? Queria questionar o que se está se fazendo por essas crianças e por essas famílias”, disse.

Outra depoente, Rosane Maria dos Santos Brandão, perdeu o marido para a Covid-19. “A vacina não chegou para o meu marido e nem pra milhares de pessoas. Se não fosse essa política de extermínio, 490 mil mortes poderiam ter sido evitadas”, disse.

Ao final, ela fez uma apelo à CPI: “Peço que tenham atenção em especial para a proposta da constituição de uma comissão de civis. Honrem os nossos mortos, diferentemente do que foi o presidente da república.”

A jovem Giovanna Gomes Mendes da Silva, de apenas 19 anos, relatou aos senadores como ela se tornou uma das orfãs da pandemia e ficou com a guarda da irmã mais nova, de apenas 10 anos, após o falecimento dos pais.

Segundo ela, a mãe contaminou-se e rapidamente evoluiu para um estágio grave da doença, falecendo após dias de intubação. O pai, que já se tratava de um câncer, pegou a Covid-19 e conseguiu se recuperar, mas teve a situação do câncer agravada e não resistiu. Os dois faleceram com 14 dias de diferença.

“Hoje, a gente vive uma vida triste com uma ou outra coisa alegre”, disse Giovanna, emocionada. Ela requereu a guarda da irmã, de 10 anos, para que ambas pudesse ficar juntas após a perda dos pais. Aos senadores, Giovanna destacou que o projeto de amparo aos órfãos é “essencial” e também pediu por soluções que englobem o tratamento à saúde mental dos afetados pela pandemia.

Prevista para acabar nesta semana, a CPI modificou a agenda de sua reta final para dar mais tempo à elaboração do relatório final da comissão, que deverá ser apresentado na próxima quarta-feira (20), e que, segundo Renan Calheiros, terá indiciamento por 11 crimes ao presidente Jair Bolsonaro.

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