Cooptado pela ultradireita aos 12 anos por meio de vídeos no YouTube, o estudante de Direito Bruno Fonseca, de 21 anos, anunciou em gravação fixada em seu perfil no Instagram, onde reúne mais de 278 mil seguidores, que mudou de lado: “Eu votei no Bolsonaro em 2022 e este ano eu vou votar no Lula”. Ex-coordenador do PL Jovem em São Paulo, ele vive e estuda em Curitiba atualmente.
O jovem explicou como se desvencilhou da ultradireita depois de militar pelas campanhas de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022, e defendeu que só o diálogo pode resgatar jovens que entraram na estrutura bolsonarista e, com isso, ajudar a eleger Lula para um quarto mandato.
“O diálogo me tirou do bolsonarismo e eu recebo muitas mensagens, todos os dias, de pessoas que me seguiam na direita e vieram junto comigo. Então, é possível. Até parece difícil, mas acontece. É só a gente não desistir”, afirmou.
Questionado sobre como conseguiu sair da estrutura da ultradireita, Fonseca foi direto: “estudei”. Segundo ele, o ingresso na universidade foi decisivo para ampliar sua visão de mundo. “Na universidade você tem contato com outras realidades, né? Então, você tem contato com bolsista, com pessoas que estão ali por conta de programa social, você entende o que é um programa social aplicado na prática”, relatou.
O estudante citou como exemplo uma colega de curso que só consegue estudar Direito graças ao ProUni e ao FIES. “Se não tivesse o programa social, provavelmente estaria se prostituindo na rua. E a verdade é essa. Então, quando você começa a ter consciência deste tipo de coisa, de que a existência daquela pessoa é graças a um programa social, se tiver o mínimo de humanidade no seu coração, você não consegue criticar aquele programa”, declarou.
Foco nos indecisos e nas mulheres
Para Bruno Fonseca, a prioridade neste momento da campanha deve ser conquistar os indecisos e, sobretudo, as mulheres, principais alvos da política machista e misógina da ultradireita. Na avaliação dele, converter bolsonaristas que são bombardeados diariamente pelas redes sociais e grupos de WhatsApp é uma tarefa muito difícil. O caminho, diz, é mirar em “pessoas que ainda podem flertar com os dois lados”.
“E mais importante do que os indecisos são as mulheres. As mulheres vão definir estas eleições. E é fazer as mulheres entenderem que, se o Flávio Bolsonaro ganhar a eleição, elas não vão mais poder votar”, alertou. Ele sugere abordagens diretas: “olhar para aquele moleque e falar assim: ‘se você votar no Flávio, a tua mãe não vota mais, a tua namorada não vota mais’. É mostrar isso para estas pessoas, que o Flávio Bolsonaro representa o retrocesso e a retirada de todos os direitos que as pessoas conquistaram”.
Como começou a cooptação
O estudante relembrou que entrou na ultradireita ainda criança, aos 12 anos, após assistir a vídeos do Movimento Brasil Livre (MBL) na internet. Na época, segundo ele, não havia a ruptura que hoje existe entre bolsonaristas e o MBL, que lançou Renan Santos (Missão) como candidato à Presidência no primeiro turno.
“Eu era um jovem de 12 anos de idade que um dia vi um vídeo da galera do MBL na internet. E eu achei o vídeo legal, engraçado, e com 12 anos de idade, fui assistir a um debate lá na USP em que o Arthur do Val, do Mamãe Falei, e o Kim Kataguiri debatiam. E naquele momento, eu entendi que era aquilo que eu queria”, contou. “Pense: eu era um jovem de 12 anos de idade a ouvir respostas fáceis para problemas muito complexos. Então, eu digo que fui cooptado pelo bolsonarismo porque eu era um jovem que obviamente não tinha nem a capacidade de pensar além daquilo que a direita vendia pela minha pouca idade. E a direita vende respostas muito sedutoras”.
Fonseca relata que militou pelo bolsonarismo em 2018 e 2022, período em que se filiou ao PL e chegou a coordenar a ala jovem do partido em São Paulo e em 37 cidades da região metropolitana. Segundo ele, existe uma estrutura dentro da legenda voltada especificamente para atrair jovens, o que se refletiu nos quadros eleitos para a Câmara Federal e as assembleias estaduais no primeiro turno.
“Eduarda Campopiano, Lucas Pavanato, Nikolas Ferreira são cabeças pensantes que atuam pela cooptação de outros jovens”, afirmou. De acordo com o estudante, o PL investe pesado na formação de novos quadros jovens, oferecendo cursos de doutrinação e apostando naqueles que demonstram potencial. “O PL faz reuniões com a juventude, dá palestras sobre comunicação, manda PDFs de como deves gravar um vídeo, dá curso disso. Então ele investe na comunicação da juventude porque sabe e entendeu muito cedo que seria ali que iria definir o resultado das urnas”, disse.






