A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) revelou, nesta quinta-feira (27), os bastidores de um plano elaborado por um influenciador digital e agentes públicos para executar um assalto milionário em Roraima. A ação, ocorrida em 29 de março, resultou no roubo de 30 kg de ouro e R$ 800 mil em espécie, levados de uma residência no bairro Caçari, Zona Leste da capital roraimense.
A trama, meticulosamente articulada, foi batizada pelos próprios envolvidos como “Planos de ficar rico.com“, nome dado a um grupo de mensagens usado para alinhar cada etapa do crime. O mentor intelectual seria Ivan Luiz Bastos Guimarães, de 33 anos, conhecido nas redes como “Itz Ivan”, proprietário do imóvel onde o minério era comercializado. Foi ele quem, com acesso direto à negociação, forneceu as informações necessárias para que os comparsas agissem.
No dia do assalto, os criminosos se apresentaram como policiais civis em cumprimento de uma suposta diligência. Usaram distintivos, uniformes e uma viatura descaracterizada. Durante a invasão, Ivan simulou ser mais uma vítima, na tentativa de disfarçar sua participação. A encenação, porém, não convenceu garimpeiros presentes no local, que passaram a ameaçá-lo. O influenciador fugiu para Manaus e, posteriormente, se estabeleceu em Santa Catarina, onde comprou imóveis de alto padrão. Foi detido em Florianópolis no dia 21 de agosto.
As investigações apontam que o delegado John Allan Cunha Castilho, da Polícia Civil do Amazonas, atuou como articulador da ação. Primo de Ivan, ele teria recrutado o investigador Diego Gabriel Rodrigues de Araújo, também do Amazonas, e coordenado a participação de policiais de Roraima. John teria permanecido fora da residência durante a investida, garantindo a retirada dos valores com segurança. Ele e Diego foram presos na quarta-feira (26).
Já o investigador Marcelo Henrique de Araújo Sobral, da Polícia Civil de Roraima, teria liderado a abordagem armada no interior da casa, utilizando uma caminhonete oficial descaracterizada. Dezoito dias após o roubo, ele tentou registrar um boletim de ocorrência retratando a ação como uma “averiguação de rotina”, manobra considerada pelos investigadores como tentativa de legitimar o crime. O agente foi afastado da função.
O planejamento começou dois dias antes do roubo, quando Ariane Cabral Paes, esposa de Marcelo, criou o grupo de WhatsApp que daria nome à operação criminosa. A mensagem “Bingo”, enviada às 19h59 do dia do crime, confirmava o êxito da empreitada.
O rastreamento financeiro revelou a divisão dos lucros: Marcelo recebeu ao menos R$ 200 mil, enquanto R$ 180 mil foram transferidos para contas de sua companheira. Outros R$ 150 mil teriam sido prometidos ao cunhado, Guilherme Santana da Silva, apontado como um dos executores da invasão. O ouro subtraído teria sido revendido com apoio de parentes dos agentes envolvidos.
A farsa começou a ruir quando o verdadeiro comprador do lote de ouro denunciou o assalto às autoridades. A partir daí, a Draco aprofundou as apurações, reunindo provas como o material apreendido, o monitoramento dos veículos usados e o enriquecimento incompatível dos investigados.
Entre os oito suspeitos identificados, três permanecem presos, três usam tornozeleira eletrônica, um responde em liberdade com restrições e um segue foragido.
A defesa do delegado John Allan declarou que recebeu a notícia da prisão com surpresa, nega o envolvimento do cliente e destaca que ele é servidor concursado, sem registros criminais anteriores.






